Prof. Ms. Mauro Guerra

Entrevista com o professor Ms. Mauro Guerra

Entrevista realizada em 09/11/2020

Olá, Professor Ms. Mauro Guerra, é uma grande satisfação poder entrevistá-lo.
1) Workshop de Lutas: Qual sua relação com os esportes de combate? Por que você resolveu estudar no seu doutorado o treinamento esportivo, aplicado aos esportes de combate?
Mauro Guerra: Minha relação com esportes de combates é bem antiga, durante a minha infância eu pratiquei diversas modalidades como karatê, judô e capoeira, e permaneci até a adolescência, quando iniciei no jiu-jitsu, e junto com o judô, fui treinando e competindo em competições estaduais e nacionais, por vários anos. Após o mestrado, tive a oportunidade de trabalhar como fisiologista (analista de desempenho físico) de uma equipe profissional de MMA. Durante esse período, comecei a buscar na literatura algumas evidências cientificas sobre determinados aspectos do treinamento físico do MMA e por consequência, montei o meu projeto do doutorado, a fim de responder essas perguntas.
2) Workshop de Lutas: Você poderia nos falar um pouco dos achados da sua tese de doutorado? Quais são as respostas parciais? O que o seu estudo poderá propiciar para os treinadores e técnicos nos esportes de combate?
Mauro Guerra: Minha tese tem 2 objetivos principais:
1- Descrever as principais características neuromusculares de atletas de MMA e se há diferenças entre atletas de níveis competitivos diferentes. No momento, temos encontrado diferenças em testes físicos como salto vertical e capacidade de mudança de direção específica. Acredito que nossos resultados poderão informar a treinadores como direcionar o trabalho físico no que se refere às capacidades físicas.
2- Quantificar a carga interna dos treinos técnicos e físicos e relacioná-la com testes físicos com o objetivo de proporcionar um modelo científico válido, para controle e monitoramento de atletas de MMA (em andamento).

3) Workshop de Lutas: Nos dias atuais, discute-se muito os meios e métodos de preparação física aplicados aos esportes de combate. Pensando no treinamento com pesos, existe algum método mais adequado para atletas de grappling?
Mauro Guerra: Complicado limitar o treinamento resistido a um método único, até porque temos que saber para qual finalidade será o uso deste método de treinamento. Mas se objetivo for melhorar a força e potência muscular, e nas capacidades físicas de velocidade e agilidade, já existem diversas evidências científicas feitas com atletas de outras modalidades esportivas e com indivíduos treinados, sob a utilização de exercícios derivados do LPO, sendo superior ao treinamento resistido tradicional; nos últimos anos, já temos também algumas evidencias do Treinamento Baseado em Velocidade (TBV), quando comparado com o treinamento resistido tradicional por % do RM.
4) Workshop de Lutas: Para você, quais são as principais capacidades físicas que devem ser trabalhadas em modalidades de grappling? E striking? E o MMA?
Mauro Guerra: Eu posso estar sendo um pouco radical nessa resposta, mas a principal capacidade física a ser trabalhadas com atletas, indiferente da modalidade é a força muscular, e principalmente na forma de manifestação rápida ou como normalmente chamamos, potência muscular. Diversos estudos têm mostrado que a força máxima quando medida através do 1RM no Back Squat, é diferente entre atletas de baixo nível competitivo (recreativo, amador e juvenil) e do alto nível competitivo; porém, dentro do alto nível competitivo é a potencia muscular que difere os atletas mais bem ranqueados. Recentemente, o Prof. Franchini publicou um estudo que comparou diversas capacidades físicas entre atletas profissionais com diferentes classificações de ranking no judô. Seus resultados mostraram que os atletas mais bem colocados apresentavam o salto vertical (teste indicativo para a potência muscular), significativamente maior do que o segundo grupo.
5) Workshop de Lutas: Nas últimas semanas vimos uma grande discussão sobre a aplicabilidade do treinamento de potência nos esportes de combate. Qual a sua visão sobre a potência muscular nos esportes de combate?
Mauro Guerra: Como disse na pergunta anterior, é a principal destreza neuromuscular diferenciadora do nível competitivo entre atletas. Algumas evidências têm mostrado que o desempenho em algumas habilidades técnicas como tackles, socos e chutes se correlacionam positivamente com a potência muscular. Inclusive estamos com um estudo submetido para análise em uma revista da área de lutas, sobre relação entre o salto vertical, massa corporal e o desempenho do direto (soco) com atletas de MMA.
6) Workshop de Lutas: Outro ponto discutido nas mídias sociais foi a minimização da importância do treinamento pliométrico nos esportes de combate. Você também acredita que o treinamento pliométrico não é relevante para os esportes de combate?
Mauro Guerra: O treinamento pliométrico é um dos métodos de treinamento físico que mais apresenta evidências científicas da sua eficiência para a melhoria da potência muscular, principalmente por adaptações neurais que favorecem a melhora da taxa de desenvolvimento de força e o ciclo alongamento-encurtamento. Essas adaptações são fundamentais para o esporte de combate. Um bom exemplo disso seria o double leg; é logico que o timing vai ser o determinante para o sucesso do golpe, mas as adaptações citadas acima favorecem o aumento da velocidade do atleta na execução do gesto técnico.
7) Workshop de Lutas: Evidências científicas prévias, como por exemplo o estudo de Buchheit (2014), publicado no periódico Frontiers in Physiology (https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphys.2014.00073/full), aponta que uma das medidas para avaliar a recuperação e o desempenho competitivo ao longo de uma temporada, envolve a utilização do salto com contramovimento. Portanto, baseado nas informações do artigo citado, qual sua visão em relação ao monitoramento do treinamento e utilização do salto com contramovimento?
Mauro Guerra: Concordo, tem total relação, e essa é uma pergunta que meu doutorado está tentando confirmar também. Mas a ideia do SCM ser um indicador de rendimento e ou fadiga vem do que falamos anteriormente sobre a potência muscular ser a principal capacidade física para o sucesso entre atletas de alto rendimento, e mecanicamente falando, a velocidade do encurtamento de um sarcômero está inversamente relacionado com a quantidade de força que o mesmo pode produzir, e isto pode ser descrito de uma forma aplicada, pelo qual quanto maior a carga externa aplicada ao atleta, mais força deve ser produzida pelo sistema neuromuscular para gerar uma ação explosiva, aumentando assim, a velocidade dessa ação. Alterações positivas ou negativas nesse aspecto (altura do salto), irão infomar o estado neuromuscular do atleta.
8) Workshop de Lutas: Como podemos trabalhar potência muscular nos esportes de combate?
Mauro Guerra: A primeira coisa é entender que qualquer tipo de treinamento de força irá trabalhar potência muscular, mas não quer dizer que irá maximizá-la. Essa compreensão é fundamental não só para escolhermos o método, mas também a carga a ser trabalhada. Levando em consideração a análise do salto vertical como a melhora da potência muscular, os métodos mais eficazes são o treinamento pliométrico e os exercícios derivados do LPO. Quanto ao treinamento resistido tradicional, temos um corpo de evidências mostrando que a carga associado a velocidade será a determinante para a melhora da potência muscular.
9) Workshop de Lutas: Nós devemos considerar a especificidade das diferentes modalidades de combate para prescrição do treinamento de potência? Se sim, quais pontos devem ser considerados?
Mauro Guerra: Na minha opinião não. O treinamento físico tem por objetivo desenvolver as capacidades físicas do atleta; de certa forma, isso não está associado a modalidade em si. Os efeitos de uma possível transferência esportiva irão ocorrer por associações entre o treinamento físico e o treinamento técnico.
10) Workshop de Lutas: Quais exercícios podem ser incorporados na rotina de treinamento de atletas de combate, para o desenvolvimento de potência?
Mauro Guerra: De uma forma bem direta: Saltos pliométricos, arremessos e puxadas do LPO, e exercícios balísticos como o jump squat e bench press throw.
11) Workshop de Lutas: E para o monitoramento do treinamento?
Mauro Guerra: Eu particularmente gosto de utilizar o salto vertical (SCM) associado a escalas perceptivas de esforço, de prontidão e recuperação. Mas existem muitas outras ferramentas como a variabilidade da frequência cardíaca, e o próprio treinamento baseado em velocidade.
12) Workshop de Lutas: Mauro, muito obrigado pela sua participação na sessão “entrevistas”, do site Worskhop de Lutas. Foi uma grande satisfação poder contar com seu know-how em esportes de combate. Até a próxima.
Mauro Guerra:
Eu que agradeço pelo convite, foi um enorme prazer participar e espero de certa forma ter contribuído com alguma informação relevante para a área.

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