Professor Elton Fiebig

Perspectivas sobre os Jogos Olímpicos 2020 e reflexões sobre o judô brasileiro

Entrevista realizada em 13/01/2021

Olá, Professor Elton Fiebig, é uma grande satisfação poder entrevistá-lo.

1) Workshop de Lutas: Inicialmente, gostaríamos que o senhor falasse sobre sua trajetória no judô.
Resposta de Elton Fiebig: Eu iniciei o judô no final de 1980, em um dojo dentro do condomínio onde eu morava. Em 1985, eu fui treinar na Associação de Judô Vila Sónia e tive como Sensei: Massao e Luiz Shinohara e como Senpais: Aurélio Miguel, Luís Onmura, Nelson Onmura, entre outros campeões da Época. Com 14 anos, eu fui vice campeão brasileiro, meu primeiro título de expressão e com 16 para 17 anos, fui campeão e posteriormente convidado para treinar no Japão, com então medalhista Olímpico, Aurélio Miguel em 1989, na época com 17 anos. Em 1990, fui para Universidade de Kokushikan onde puder aprimorar o Judô e representar a instituição em competições Universitárias. Nessa época, eu me sagrei medalha de Bronze, no mundial Sub 21 em 1992, na categoria-95 kg. Voltando ao Brasil fui das Seleções universitária, Militar e principal.

2) Workshop de Lutas: Como foi realizar a graduação em Educação Física no Japão? Há incentivo para a pesquisa? Há um link entre a teoria e a prática?
Resposta de Elton Fiebig: Estudei entre 1992 a 1994 o Curso de Budo Rom ou especialização de Educação física, com Ênfase nas Artes Marciais Japonesas. Conheci as modalidades de lutas oriundas do Japão de forma histórica, período feudal de seu uso e aplicação atuais, como parte da tradição do Budô. Na área de pesquisa tudo que era de mais moderno e que muitas vezes não chegam fora do país eram aplicadas.

3) Workshop de Lutas: Durante o período que o senhor ficou no Japão, qual suas percepções em relação ao treinamento dos atletas de judô? Como eram as sessões de treino?
Resposta de Elton Fiebig: Meu Técnico era Saito Hitoshi, Bi-Campeão Olímpico dos pesados em 1984-88, sendo principal Adversário de Yasuhiro Yamashita. Ele passou por várias lesões, o que fez dele um atleta que teve que se superar sempre, não admitindo corpo mole ou falta de vontade. Em seus treinos ele era conhecido como: “treinamento infernal”, pois não tinha hora para acabar, enquanto não sentisse que todos deram seu máximo, o treinamento não acabava. Normalmente, era entre 7h ou 8h da manhã, o treinamento físico e o treinamento específico no tatame era das 16h 15 min até às 20h, de segunda a sexta-feira e sábado das 9h às 12 h. Era um volume muito grande, mesmo para época.

4) Workshop de Lutas: Os treinamentos físicos, técnicos e táticos realizados no Japão diferem dos treinamentos realizados nos outros países e especialmente, no Brasil?
Resposta de Elton Fiebig: Na verdade, eu fui um dos pioneiros em trazer o sistema japonês para o Brasil; no Japão se trabalhavam sessões físicas, técnicas e táticas dentro de uma mesma sessão de treinamento, o que muitas vezes trazia uma sobrecarga grande para a parte principal ou ainda estímulos fracos. No Brasil, não havia periodização ou qualquer direcionamento técnico.

5) Workshop de Lutas: Em qual sentido o judô brasileiro precisa acima de tudo evoluir? Tecnicamente? Taticamente? Fisicamente? Qual sua percepção em relação a esses três componentes?
Resposta de Elton Fiebig: Em primeiro lugar, a quantidade de atletas. A formação não é homogênea, a preparação física muitas vezes é empírica, existe a falta de intercâmbio da base ao alto rendimento e o atual sistema da seleção, promove um distanciamento dos atletas da seleção, às competições nacionais.

6) Workshop de Lutas: Qual sua expectativa para o desempenho japonês nos jogos olímpicos de Tóquio 2020, no sexo masculino e feminino?
Resposta de Elton Fiebig: O Japão no geral, tem chance de medalhas em todas as categorias, mas no naipe masculino, em unanimidade acho que as categorias: -66 kg e -73 kg e no feminino, as categorias: -48 kg, -52 kg, -57 kg e +78 kg, mas todas as categorias têm condições de disputar a medalha, se estiverem em um bom dia. No masculino, os maiores adversários são: Coreia do Sul, Rússia e Geórgia, apresentam trabalhos consistentes com toda equipe; no feminino, a França apresenta um ótimo trabalho em todas as categorias e Kosovo faz um bom trabalho nas categorias mais leves.

7) Workshop de Lutas: Quantas medalhas são esperadas pela equipe técnica do Japão?
Resposta de Elton Fiebig: 14 medalhas, com pelo menos 5-6 ouros.

8) Workshop de Lutas: Quais são as categorias de peso japonesas que apresentam atletas de maior renome internacional?
Resposta de Elton Fiebig: Masculino: -66 kg, -73 kg, depois -60 kg, -100 kg, e ainda, -81 kg, -90kg e + 100 kg. Feminino: -48 kg, -52 kg, -57 kg e +78 kg, em seguida, -63 kg, -70 kg e -78 kg, mas todas podem ganhar, pois feminino é mais homogêneo que o masculino.

9) Workshop de Lutas: Em Tóquio 2020, teremos a primeira competição olímpica de judô por equipes. Quais equipes são favoritas para medalhar além do Japão?
Resposta de Elton Fiebig: França, Coréia do Sul, Mongólia, Rússia, Brasil e Alemanha.

10) Workshop de Lutas: Temos visto que judô japonês passou por uma grande reestruturação técnica. Em sua opinião, quais os motivos que levaram o judô japonês a repensar sobre a “reorganização”?
Resposta de Elton Fiebig: Resgatar o Judô de qualidade técnica e fundamentos, melhoria da condição física e busca de conhecimento de novas lutas, como por exemplo: a luta greco-romana, Kurash, Chidaoba, Sumô Mongol, Jiu Jitsu, dentre outros.

11) Workshop de Lutas: E com relação ao judô brasileiro, qual sua percepção de desempenho, nos jogos olímpicos de Tóquio 2020?
Resposta de Elton Fiebig: Difícil de forma geral por idade, lesões, doping e ainda falta de renovação, a altura em algumas categorias. Quanto a Comissão Técnica, o mesmo grupo já está à frente da Seleção há 20 anos. Acho difícil ter novidades... Enfim, é torcer para alguém estar iluminado no dia, mas acho que esse ciclo olímpico é o mais fraco desde 2004.

12) Workshop de Lutas: Os resultados do campeonato Masters 2021 é uma prévia das finais dos jogos olímpicos de Tóquio 2020?
Resposta de Elton Fiebig: França e Japão vem forte no feminino; no masculino, a Coreia do Sul, nas categorias mais leves, a Geórgia no -81 kg e -100 kg e ainda, a Holanda no -90 kg. Rinner no +100 kg com certa tranquilidade ainda sentindo ritmo, mas muito superior fisicamente e na pegada.

13) Workshop de Lutas: Na sua opinião, nossa organização e estrutura jodoística é muito amadora, quando comparado ao Japão?
Resposta de Elton Fiebig: Investimento nós temos. Os atletas desde a base têm chance de intercâmbio, mas é necessário que lutem no país e que atletas do sub 21 estejam mais próximos, brigando de igual para igual, com os adultos. Na minha opinião, essa transição está muito lenta.... No alto rendimento, o atleta com 19-20 anos já tem que confrontar os atletas da categoria sênior.

14) Workshop de Lutas: O que o judô brasileiro precisa fazer para almejar maior destaque internacional no cenário judoístico? O que falta para nós? Em que estamos pecando?
Resposta de Elton Fiebig: Temos bons professores na base. No sub 18 e sub 21 precisamos de maior intensidade e proximidade com os atletas seniores. Rodar por escolas opostas à nossa é muito importante. Treinar no Japão é muito bom para volume, mas é um judô muito tradicional. Teríamos que rodar na Geórgia, Rússia, Mongólia, em geral no leste Europeu com atletas jovens, para que aprendam desde cedo esse estilo, além de preparação física forte na formação desses atletas.... Cabe a nós técnicos da nova geração buscar esse caminho e criar nosso método, pois estamos assistindo às vitórias de nossos adversários sem mudança de postura.

15) Workshop de Lutas: Professor Elton, muito obrigado pela sua participação na sessão “entrevistas”, do site Worskhop de Lutas. Foi uma grande satisfação poder contar com seu know-how em judô. Doumo arigatou gozaimasu.
Resposta de Elton Fiebig: Fico feliz com a iniciativa e convite para estar participando da entrevista e poder como professor e amante do judô, dar minha opinião. Conhecemos nossos pontos fortes e fracos, mas cabe a nós sempre analisar e voltar atrás na busca da evolução.... para fazer dos erros aprendizados!

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