Nutricionista Fernando Gonçalves

Perda de peso nos esportes de combate

Entrevista realizada em 01/02/2021

Olá, Nutricionista Fernando Gonçalves, é uma grande satisfação poder entrevistá-lo.

1) Workshop de Lutas: Qual sua relação com os esportes de combate? Por que você resolveu estudar no seu mestrado aspectos relacionados a perda de peso em atletas de MMA?

Fernando Gonçalves: Os esportes de combate estão na minha vida há muito tempo. Comecei a treinar Muay Thai com 16 anos (atualmente tenho 32). Nesse tempo, cheguei a competir. Depois tive a oportunidade de trabalhar como instrutor sobre a tutela do meu mestre Raphael Calafange. Quando sai da faculdade de nutrição, foi natural que eu começasse a trabalhar com os atletas da equipe e ganhar experiência com esse público. A ideia do meu metrado surgiu pela vontade de avaliar um suplemento que eu tanto estudo, que é a creatina (tema da minha monografia), nos atletas de esportes de combate. Vamos avaliar a suplementação na ótica da recuperação pós-pesagem, mas mais para frente trarei mais novidades.

2) Workshop de Lutas: Você poderia nos falar um pouco sobre as hipóteses do seu mestrado? E como esses resultados poderão auxiliar nutricionistas e atletas nos esportes de combate?

Fernando Gonçalves: Na verdade, a suplementação de creatina no pós-pesagem já é muito utilizada nas modalidades de combate. Existe uma extrapolação de outros poucos estudos com indivíduos treinados que levantaram a hipótese de que a suplementação de creatina após o exercício com depleção do glicogênio (estoques de carboidrato), quando aliada a alta ingestão de carboidratos, poderia auxiliar na recuperação desses estoques. É isso que queremos confirmar, além de avaliar o aumento de peso e performance que possa ocorrer após a suplementação. Se essa hipótese for confirmada, os nutricionistas terão um norte de porque, quando e como utilizar a suplementação de creatina no momento pós-pesagem.

3) Workshop de Lutas: Qual a ideia por trás do processo de corte de peso rápido e quais riscos ele pode proporcionar aos atletas?

Fernando Gonçalves: A ideia é que o atleta que habitualmente tem um peso corporal mais alto, possa competir em categorias mais baixas. No início, se falava em ganhar vantagem com o peso, força e potência. Todavia, hoje sabemos que como todos os atletas passam por esse processo, é mais uma sensação de “se o outro atleta faz e eu não faço, irei lutar contra adversários maiores, então preciso fazer”. Também é verdade que esse processo faz parte da cultura dos esportes de combate. Apesar de muitos atletas relatarem ser a pior parte do processo de preparo para uma luta. A literatura nos mostra que existe uma sensação de “dever cumprido”, sendo que o atleta se sente mais profissional, mais focado e confiante quando passa e vence o processo. Vale ressaltar que os riscos são inúmeros, desde uma lesão renal aguda, hipernatremia, problemas com imunidade, transtornos alimentares e até mesmo, a morte como temos conhecimento alguns casos.

4) Workshop de Lutas: Fato ou mito que comendo e bebendo no período seguinte à pesagem e anterior à competição, entre 30 minutos e 20 horas, possa ocorrer a restauração total dos aspectos físicos e metabólicos do atleta? Poderia nos explicar, por favor?

Fernando Gonçalves: Restauração total é um exagero, quando se tem um período grande, como no caso de atletas de MMA (24h a 36h), temos a possibilidade de promover uma recuperação quase que total do atleta. Entretanto, mesmo com esse tempo, a literatura nos mostra que muitos dos atletas chegam desidratados na hora do combate, muitas vezes pela falta de profissionais capacitados para auxiliar no processo. Analisando a literatura sobre o tema, sabemos que se o atleta tem ao menos 3h de recuperação após a pesagem, existe a possibilidade de uma recuperação parcial dele, o que poderia não afetar negativamente a performance. É claro que quanto menor o tempo de recuperação, menos devemos manipular o peso de forma aguda (semana da luta). Se o atleta tem menos de 3h de recuperação, parece ocorrer um impacto negativo na performance. Entretanto, pensando que para vencer um combate, o atleta não precisa ter 100% de sua performance e sim, ser melhor que seu adversário; portanto, deve-se avaliar o quanto o corte de peso pode ser interessante ou não para cada situação e modalidade.

5) Workshop de Lutas: Qual seria uma estratégia segura para minimizar esses efeitos deletérios do corte de peso?

Fernando Gonçalves: Ao que parece, mesmo pequenos cortes de peso agudos podem trazer algum tipo de transtorno físico e mental para o atleta. Uma forma de minimizar o impacto, é ser realista sobre o peso atual, a composição corporal do atleta e a categoria preconizada. Por exemplo no MMA, costumamos trabalhar com um corte de peso agudo menor que 10% do peso total, apesar de ainda ser um valor alto, nos traz uma certa segurança. Outro fato que a literatura pontua, é que quanto menos o atleta entende de nutrição, mais ele lança mão da desidratação como estratégia. A desidratação é o processo que mais impacta negativamente e traz riscos para a saúde. Se pensarmos que no Brasil, o último grande estudo com atletas de combate mostrou que só 26% dos atletas procuravam ou tinham acesso a nutricionistas; em vista disso, entendemos que temos um cenário preocupante. Hoje temos várias outras estratégias bem documentadas que podem ser utilizadas para diminuição do peso do atleta, reduzindo assim a necessidade de desidratação severa e os riscos à saúde.

6) Workshop de Lutas: Outro ponto normalmente discutido é a utilização de soro pós-pesagem, apesar de alguns eventos já terem limitado essa estratégia, como você vê essa estratégia do ponto de vista fisiológico?

Fernando Gonçalves: Eu gosto de pensar de modo prático, qual o estado fisiológico necessário para que uma pessoa seja colocada no soro em um hospital? Certamente isso só ocorre quando estamos um uma situação bem ruim. Como citei anteriormente, muitos atletas passam por desidratações severas, com métodos agressivos e recorrem ao soro como uma forma “prática e fácil” de restabelecer a hidratação. Eu concordo com a proibição no sentido de tentar coibir esse comportamento. Contudo, é claro que só isso não é suficiente, não existe um controle adequado e se formos por esse caminho, são necessárias muitas mudanças nas regras e na cultura dos esportes de combate para que possamos proteger a saúde dos atletas.

7) Workshop de Lutas: Quais são as fases de dieta que o atleta passa durante a preparação para um combate.

Fernando Gonçalves: Existem duas fases dentro da preparação para uma luta, a fase longa (crônica) onde priorizamos a perda de peso com a melhoria da composição corporal, visando principalmente a perda de gordura, caso seja necessário para o atleta em questão. A Segunda fase, a fase rápida, eu costumo chamar de corte de peso agudo, onde não focamos na composição corporal e sim na manipulação do peso para que o atleta chegue ao peso da categoria e possa se recuperar após a pesagem. A fase longa pode durar meses/semanas. Já a fase rápida, costuma acontecer na semana que antecede o combate.

8) Workshop de Lutas: Dietas restritas em carboidratos/cetogênicas podem ser interessante para perda de peso em atletas de luta?

Fernando Gonçalves: Essa pergunta é interessante, caso exista um camp bem longo e estruturado, com todo um time multidisciplinar ajustado, com a dieta respeitando a fase do treino (intensidade) poderia ser uma boa estratégia para perda de peso. Conquanto, na prática, no Brasil não é o que acontece. Muitas vezes a luta é casada 1 ou 2 meses antes do evento e é um período em que o treino fica mais intenso e com mais volume, visando a preparação específica para luta. Para maioria dos atletas que trabalho, a intensidade só diminui na semana da luta. Se pensarmos que o carboidrato será o combustível mais importante durante os treinos intensos, uma dieta muito restrita em carboidratos tende a piorar a qualidade dos treinos, aumentar risco de lesões e até prejudicar a imunidade do atleta, nesse período. Outro fato interessante é que o glicogênio (estoque de carboidratos), além de ter seu peso próprio, também se liga a água. Esses estoques quando manipulados, podem representar uma perda de peso considerável na semana da luta. Chegar com esses estoques baixos na fase rápida seria perder uma grande oportunidade de manipulação de peso. Por isso, quando possível e necessário, só utilizo a restrição severa de carboidratos durante corte de peso agudo (semana da luta).

9) Workshop de Lutas: Quais são os maiores erros que os atletas cometem durante um período de perda de peso para um combate?

Fernando Gonçalves: Podemos citar vários, mas para não delongar muito, vou focar em dois. Estar bem mais pesado que o limite da categoria, tendo um percentual de gordura já muito baixo. Esse é um erro estratégico muito cometido por treinadores e atletas. Isso pode ser uma indicação clara de que o atleta está na categoria errada e o processo de perda de peso para os combates pode ser agressivo, além de colocar em risco a saúde, desempenho e longevidade no esporte. Outro erro que considero grave é que muitos atletas e treinadores acreditam que a desidratação deve começar dias antes da pesagem. Fato que além de não trazer benefícios para o corte de peso em si, coloca a saúde do atleta em risco, aumenta a sensação de dificuldade e atrapalha o final do processo. A desidratação só deve começar cerca de 24h a 36h antes do combate, mas o ideal é que o atleta chegue nessa fase próximo do peso e relativamente bem hidratado.

10) Workshop de Lutas: Quais suplementos podem auxiliar o atleta durante o período de perda de peso?

Fernando Gonçalves: Como para população em geral, não existe milagre. O balanço energético negativo vai ditar o processo (consumir menos calorias do que se gasta). Suplementos que auxiliam na performance melhorando a qualidade dos treinos, como a creatina, beta alanina, cafeína e bicarbonato de sódio, por tabela, vão auxiliar de forma indireta no processo. Entretanto, é preciso ter atenção com a creatina, pois ela acarreta um aumento de água dentro do músculo, gerando um ganho de peso. O que para alguns atletas pode ser mais do que 1kg. Por isso como precaução costumo parar a suplementação cerca de 30 dias antes do combate. Os suplementos proteicos além de ajudar na saciedade durante o período de restrição calórica, podem ser aliados na manutenção da massa muscular quando esse for o objetivo. Fora isso, aumentar o volume das refeições sem adicionar muitas calorias, aumentando o consumo de vegetais, frutas, leguminosas (feijões) e fibra, além de beber muita água, são boas estratégias.

Descrição: Fernando Reis Gonçalves é Bacharel em Ciências da Nutrição pelo Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação (IBMR), Pós graduado ISSN Diploma pelo Guru Performance Institute do Reino Unido, é nutricionista certificado pela Associação Internacional de nutrição Esportiva (ISSN) e avaliador certificado ISAK nível 1.
Trabalha em seu consultório particular no Rio de Janeiro, onde divide seu tempo entre seus pacientes e seu projeto social “Alimentando Guerreiros” o qual é direcionado a atletas carentes praticantes de esportes de combate, projeto esse que atualmente conta com campeões de diversas modalidades. Além disse é nutricionista da empresa Homie do Rio de Janeiro.
A sua paixão pela Nutrição Desportiva levou a criação do quadro de lives “Papo com Nutricionista”, que contou com excelentes profissionais do Brasil e Portugal, dando origem a um canal do Youtube e um Podcast.

Observação: Entrevista realizada pelo professor Ms. Mauro Guerra – Preparador físico de atletas de modalidades esportivas de combate.

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